Estratégia e inovação nas empresas brasileiras para 2026

O ano de 2026 iniciou trazendo a geopolítica para o centro da estratégia corporativa, com dois acontecimentos recentes de grande impacto: o reposicionamento dos Estados Unidos na Venezuela e a conclusão do Acordo União Européia–Mercosul. Ambos alteram fluxos comerciais, cadeias de suprimento, investimentos e padrões de competitividade, reforçando a análise de riscos e oportunidades para cada segmento de mercado e para as empresas brasileiras.

A relação comercial Brasil-Estados Unidos já vinha tensionada pelo “tarifaço” e suas revisões sucessivas, levando empresas a redirecionar exportações e rever fornecedores. Abrir novos mercados exportadores passou a ser uma prioridade.

Paralelamente, a estratégia americana de aumentar seu domínio sobre reservas e produção de óleo e gás natural na Venezuela e na Guiana, adicionam uma incerteza regional. Ainda que a recomposição plena da infraestrutura venezuelana, para voltar aos níveis de produção superiores a 3.000 barris/d, demande tempo, o fato afeta decisões das petrolíferas sobre a exploração na Margem Equatorial Brasileira, e pode impactar fornecedores brasileiros de máquinas e serviços para o setor.

No gás natural, uma maior integração com a Argentina, com volumes excedentes sazonais, ainda que condicionada aos gasodutos bolivianos, pode favorecer a competitividade do energético no mercado livre. O gás natural, cada vez mais central na transição e na indústria, dependerá de acordos regionais pragmáticos.

Já o Acordo União Européia-Mercosul, cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com cerca de 720 milhões de pessoas e PIB superior a US$ 22 trilhões, beneficiando o Brasil com a eliminação de tarifas para cerca de 90% dos produtos, acesso a compras governamentais, estímulo a investimentos, redução da burocracia, além de proteger produtos nacionais. O acordo prevê mecanismos de proteção para setores sensíveis da indústria brasileira, garantindo uma abertura faseada.

A União Européia permanece como o segundo principal destino das exportações brasileiras. Em 2025, o Brasil exportou US$ 49,8 bilhões ao bloco e importou US$ 50,29 bilhões. Combustíveis/óleos minerais, ração/insumos agropecuários, minérios e café lideraram as exportações brasileiras. E produtos farmacêuticos, máquinas, equipamentos e veículos concentraram as importações.

A conjuntura internacional poderá ainda ser afetada com o fim do tratado “New Start” entre Rússia e Estados Unidos que estabelecia limites para o tamanho do arsenal nuclear estratégico de cada lado. A ausência de um novo acordo – potencialmente envolvendo a China – eleva o risco de uma corrida armamentista, com reflexos na demanda de urânio, aço, e minerais estratégicos.

O ambiente geopolítico pela sua relevância, impactando diretamente no preço do barril de petróleo e das commodities, assim como, no mercado financeiro global, precisa assim ser acompanhado e traduzido na estratégia de cada empresa, exigindo monitoramento constante pelos Conselhos. As consequências são distintas e em momentos diferentes para cada setor de atividade econômica.

As mudanças climáticas severas são outro fator externo global crítico. Segundo o Gallagher Re – Natural Catastrophe and Climate Report em 2024 os 10 maiores desastres globais, registraram US$ 417 bilhões em prejuízos econômicos, com apenas um terço segurado. Os prêmios de seguros cresceram, mais de 10,6%, refletindo indenizações decorrentes de enchentes, tempestades, e deslizamentos. Sem contar que o calor extremo leva a um aumento do risco elétrico, não apenas pela sobrecarga de demanda, mas na resistência de alguns materiais.

No Brasil, apesar da percepção de ser um país de baixa exposição a catástrofes naturais, a enchente do Rio Grande do Sul em 2023, evidenciou a falta de um mapeamento dos riscos, de planejamento de Governos e das empresas para a resposta rápida em caso de tragédias.

A OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico recomenda intensificar a cooperação global e parcerias público-privadas, como solução para uma melhor modelagem financeira de riscos.

Entretanto, a resiliência corporativa vai além da contratação de seguros: envolve prevenção, adaptação de instalações, diversificação geográfica e planos de contingência. As empresas que respondem de forma coordenada a tragédias preservam seu valor reputacional, e consolidam a confiança de investidores e colaboradores.

No contexto interno do Brasil, a Reforma Tributária representa uma mudança estrutural. Será o tópico mais importante que permeará a Estratégia das organizações, já que sua adaptação não apenas altera alíquotas, mas redefine processos de gestão, precificação e tecnologia, com impacto significativo nas áreas financeira, de compras, de vendas, de logística, e de tecnologia.

Em 2026 inicia-se a fase de testes, com alíquota de 1% sobre a movimentação de bens e serviços (0,9% CBS + 0,1% IBS), para validar o recolhimento do IVA dual para os diferentes níveis federativos, e os necessários ajustes tecnológicos. Além disso, haverá um mecanismo de compensação para a neutralidade da carga tributária, a conformidade da Nota Fiscal com preenchimento de novos campos, e estreia do Split Payment para o varejo.

A não adaptação tecnológica em 2026 poderá gerar disrupção relevante em 2027, quando PIS e COFINS forem extintos e o novo IVA Dual operar plenamente. A promessa é de maior transparência e segurança jurídica, com estímulo à competitividade da indústria nacional.

Outros temas que exigirão atenção dos comitês de Estratégia das organizações são as novas normas de licenciamento ambiental para empresas que atuam em infraestrutura, o uso produtivo da inteligência artificial (IA), e a transição energética.

No campo da Inovação, o uso da IA precisa garantir o efetivo ganho de produtividade e inovação, para ser o motor de crescimento industrial. A pesquisa da Abiacom – Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce, indica que 72% das empresas estão no estágio experimental, com uso informal por quase metade dos profissionais.

As áreas que lideram o uso de IA são marketing e atendimento ao cliente, seguidas por vendas e tecnologia da informação. E observa-se maior resistência de aplicações em recursos humanos, compras, logística, e no jurídico, apesar do potencial de ganhos expressivos de produtividade.

O uso informal de IA nas empresas levanta riscos de governança e segurança da informação. A implementação eficaz exige estratégia clara, métricas de desempenho, capacitação de talentos e políticas de compliance digital. A atração da geração Z, nativa digital, também integra essa agenda.

Quanto ao financiamento da inovação para transição energética, o Brasil dispõe de instrumentos relevantes. Segundo a plataforma Inova-e da EPE – Empresa de Pesquisa Energética, os investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Demonstração – PD&D no setor de energia atingiram R$ 7,6 bilhões em 2024, maior valor histórico, com predominância de recursos orientados pela ANP. Parte crescente destina-se à transição energética, renováveis, biocombustíveis e tecnologias de captura e armazenamento de carbono. Ainda assim, persiste um hiato entre pesquisa e transformação efetiva do consumo energético empresarial.

Para assegurar a competitividade e o desenvolvimento sustentável, os Conselhos precisam estabelecer metas claras de eficiência energética, produtividade e inovação, alinhadas ao posicionamento setorial.

Geopolítica, clima, tributação, licenciamento, inteligência artificial e transição energética não são agendas paralelas, mas componentes integrados de estratégia.

Em 2026, a vantagem competitiva será determinada pela capacidade de antecipação, execução disciplinada e integração entre estratégia e inovação. Empresas que tratarem esses vetores de forma sistêmica estarão melhor posicionadas para crescer em um ambiente de elevada complexidade e volatilidade.

Algumas das áreas de trabalho da EXERGIA para 2026 serão a estratégia, atração e desenvolvimento de novas tecnologias para empresas brasileiras.